El Niño ameaça safra e preços dos alimentos
Novo fenômeno climático preocupa produtores rurais e pode provocar secas, enchentes, queimadas e impactos na produção agrícola brasileira até 2027
El Niño ameaça safra e preços dos alimentos A confirmação de um novo episódio do fenômeno El Niño pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) acendeu o alerta no agronegócio brasileiro. Com possibilidade de atingir intensidade forte ou muito forte, o evento climático pode afetar a produção agropecuária em diversas regiões do país e pressionar os preços dos alimentos nos próximos meses.
Segundo projeções do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), há mais de 80% de probabilidade de o fenômeno persistir até o início de 2027. A NOAA também estima 63% de chance de que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico ultrapasse 2°C, condição associada a um El Niño de grande intensidade.
Os impactos variam conforme a região. No Norte, a previsão é de seca prolongada, calor extremo e redução do nível dos rios amazônicos, dificultando a produção agrícola, pesqueira e o transporte de grãos. O cenário também aumenta o risco de queimadas florestais e rurais.
No Nordeste, a expectativa é de estiagens severas, com prejuízos para lavouras e pastagens devido à baixa disponibilidade de água no solo. Já no Centro-Oeste e no Sudeste, as temperaturas elevadas e a redução da umidade favorecem incêndios em áreas produtivas e podem comprometer o início do plantio da safra.
Na região Sul, o problema pode ser o excesso de chuvas. Temporais frequentes e enchentes têm potencial para dificultar operações de plantio e colheita, além de provocar alagamentos em áreas agrícolas.
A assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Danyella Bomfim, alerta que os reflexos sobre os preços dos alimentos tendem a ser percebidos apenas na próxima safra.
“O El Niño pode influenciar os preços dos alimentos mais no início do ano que vem. O impacto no bolso não vai ser imediato. Vem como resposta a essa menor oferta na safra seguinte. Os produtos que mais podem ser afetados são os mais perecíveis: hortaliças, frutas, arroz, feijão, leite e carne”, afirmou.
A especialista lembra que o setor ainda carrega os efeitos do chamado “super El Niño” de 2015 e 2016, responsável por perdas expressivas em diversas regiões produtoras do país.
“Um novo El Niño preocupa o setor devido ao histórico de perdas de 2015 e 2016”, destacou.
Entre as principais preocupações está a redução das chuvas na região do Matopiba, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, importante fronteira agrícola do país. A falta de água pode comprometer o desenvolvimento das lavouras de grãos e reduzir a produtividade das culturas.
Outro risco apontado pela CNA é o atraso do plantio da soja, que pode impactar diretamente a segunda safra de milho. Quando a semeadura ocorre fora da janela ideal, o cereal fica mais exposto a períodos de seca e calor intenso durante fases decisivas de desenvolvimento.
Para minimizar os prejuízos, Bomfim recomenda planejamento e acompanhamento constante das condições climáticas.
“Os produtores precisam monitorar as previsões meteorológicas para ajustar as janelas de plantio da safra 2026/2027, escolher variedades mais resistentes, investir em tecnologia e contratar seguro rural”, orientou.
Apesar das preocupações, alguns efeitos podem ser positivos. A previsão indica maior regularidade das chuvas no sul do Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso do Sul e parte de Goiás, favorecendo o desenvolvimento das lavouras. Além disso, o inverno e a primavera mais quentes na região Sul podem reduzir a ocorrência de geadas severas, beneficiando culturas de inverno e pastagens.
O Ministério do Meio Ambiente informou que já adotou medidas preventivas para enfrentar possíveis queimadas, incluindo a mobilização de brigadistas, distribuição de equipamentos, declaração de emergência ambiental em áreas de risco e monitoramento constante das condições climáticas.
O El Niño ocorre devido ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno altera os padrões atmosféricos em diversas partes do mundo e pode afetar a produção de alimentos, a disponibilidade de água, a geração de energia e outras atividades econômicas.






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