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Goiânia,12/06/2026

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    El Niño volta ao radar e amplia desafios para o agronegócio brasileiro

    Possível retorno do fenômeno em 2026 preocupa produtores diante dos riscos climáticos e das mudanças no mercado internacional

    Reprodução/ Bloomberg Creative/ Bloomberg Creative Photos
    El Niño volta ao radar e amplia desafios para o agronegócio brasileiro El Niño volta ao radar e amplia desafios para o agronegócio brasileiro

    Durante muitos anos, o El Niño foi considerado um aliado da agricultura brasileira. O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, costumava favorecer o aumento das chuvas em importantes regiões produtoras, reduzindo os riscos de estiagens e contribuindo para boas safras de culturas como soja, milho e arroz.

    Percepção que já não reflete completamente a realidade atual do campo brasileiro. A expansão da fronteira agrícola para o Centro-Oeste e para a região do MATOPIBA, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, alterou significativamente a geografia da produção nacional.

    Nos últimos 25 anos, a produção brasileira de grãos saltou de cerca de 100 milhões para mais de 350 milhões de toneladas. Grande parte desse crescimento ocorreu em áreas do Cerrado, impulsionado por avanços tecnológicos, mecanização e correção de solos. Com isso, estados como Mato Grosso passaram a desempenhar papel estratégico no abastecimento global de soja e milho.

    O problema é que os efeitos do El Niño não são uniformes. Enquanto no Sul do país costuma registrar chuvas acima da média, regiões centrais do país frequentemente enfrentam atraso no início das precipitações, veranicos prolongados e temperaturas elevadas. Essas condições podem comprometer o plantio e o desenvolvimento das lavouras.

    Na safra 2014/15, o Brasil colheu 209,5 milhões de toneladas de grãos. Sob influência do forte El Niño de 2015/16, a produção caiu para 186,6 milhões de toneladas. Situação semelhante ocorreu em 2023/24, quando a safra recuou de 322,8 milhões para 298,4 milhões de toneladas. Embora fatores econômicos, tecnológicos, sanitários e logísticos também influenciem o desempenho do setor, chama atenção a coincidência entre os episódios mais intensos do fenômeno e as quedas expressivas da produção nacional.

    Sinal de alerta - As projeções climáticas indicam a possibilidade de um novo El Niño a partir do segundo semestre de 2026. A probabilidade de ocorrência é estimada em 62% entre junho e julho, chegando a 80% a partir de agosto.

    Para Carlos Eduardo Freitas Viana, professor do Departamento de Economia, Sociologia e Administração da Esalq-USP, delegado do Corecon em Piracicaba e membro do Fórum de Agronegócio do Corecon-SP, os riscos climáticos têm aumentado de forma consistente nos últimos anos.

    “O agronegócio teve o seu risco econômico aumentado nos últimos anos por conta dessas variações climáticas.”

    Segundo o especialista, os efeitos variam de acordo com a região. No Sul, o excesso de chuvas pode prejudicar fases importantes de culturas de inverno, como trigo e aveia. Já no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste, a preocupação está relacionada à redução das chuvas e ao aumento dos períodos secos durante a primavera e o verão.

    A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alerta que alterações nos calendários agrícolas, redução da umidade do solo, enchentes e aumento do estresse térmico podem gerar impactos econômicos relevantes em toda a América Latina.

    “O agronegócio é um dos setores mais importantes e nós temos visto nos últimos tempos que os riscos relacionados às questões climáticas têm aumentado. Isso tem um potencial para afetar os preços dos alimentos e afetar também o PIB do país e o PIB do agro propriamente dito”, afirma.

    O especialista lembra ainda que eventos climáticos extremos estão entre os principais responsáveis pelas perdas registradas na agricultura latino-americana.

    “A agricultura tem ciclos longos, então quando acontece algo assim os preços demoram às vezes um pouco mais para se restabelecerem em patamares um pouco mais baixos”, explica.

    China busca reduzir dependência de importações

    Os desafios climáticos surgem em um momento de transformação no principal mercado comprador do agronegócio brasileiro.

    A China aprovou seu 15º Plano Quinquenal para o período de 2026 a 2030, colocando a segurança alimentar entre as prioridades estratégicas do país. A iniciativa prevê investimentos em biotecnologia, automação agrícola, inteligência artificial e melhoramento genético para ampliar a produção interna.

    Para Viana, a estratégia pode reduzir gradualmente a dependência chinesa das importações agrícolas.

    “A China tem adotado uma política mais eficiente para incentivo da produção agrícola interna, tem também investido em algumas outras regiões. Houve nos últimos anos um investimento importante por parte da China em algumas regiões da África, com vistas à produção de alguns alimentos para exportação para a China”, observa.

    Atualmente, cerca de 71% da soja exportada pelo Brasil tem como destino o mercado chinês. O país asiático também responde por mais da metade das compras de carne bovina brasileira.

    “Eu acredito que a China não vá conseguir ser totalmente independente, mas talvez os volumes e a participação possam se reduzir no futuro. Então isso hoje já é um aspecto importante que já começa a entrar na agenda estratégica dos setores do agronegócio”, pondera.

    Concorrência Internacional - Outro fator que preocupa o setor é a reaproximação comercial entre China e Estados Unidos. Acordos recentes entre as duas maiores economias do mundo incluíram redução de tarifas e compromissos de compra de produtos norte-americanos.

    Para os exportadores brasileiros, esse cenário pode ampliar a concorrência internacional justamente em um período de incertezas climáticas.

    “As tarifas americanas são um grande complicador nessas idas e vindas e isso pode ser um problema para o Brasil, afetando as nossas exportações. Algumas cadeias produtivas têm os Estados Unidos como um destino importante”, alerta.

    O especialista destaca que o Brasil tem demonstrado capacidade de buscar novos mercados. “O Brasil já mostrou nos dois últimos anos, que conseguiu de alguma maneira compensar em alguns momentos as tarifas com novos destinos. Isso é algo que nós podemos tentar explorar.”

    Diante das mudanças no cenário global, a diversificação dos parceiros comerciais aparece como uma estratégia importante para reduzir a dependência de poucos compradores. “Nós precisamos, enquanto país, começar a pensar em novos destinos, em diversificar um pouco a nossa pauta de destinos das nossas exportações.”

    Entre as oportunidades apontadas pelo especialista estão a ampliação das relações comerciais com países da América Latina e o avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia.

    “Eu particularmente acho que nós devemos tentar aproveitar um pouco mais o acordo Mercosul-União Europeia e também acho que seria bastante relevante para o Brasil olhar um pouco mais para a América Latina como um destino para as nossas exportações de alimentos”, conclui.




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