Brasil tem uma das menores coberturas de seguro rural do mundo
Estudo da FGV Agro aponta fragilidade do sistema brasileiro diante de riscos climáticos e destaca modelos internacionais como referência para ampliar a proteção no campo
Brasil tem uma das menores coberturas de seguro rural do mundo O Brasil possui hoje um dos sistemas de seguro rural mais vulneráveis entre os grandes produtores agrícolas do mundo. A conclusão é de um estudo elaborado pelo FGV Agro, que comparou os modelos adotados em países como Estados Unidos, Espanha, Índia, Argentina, Chile, México e Peru.
Em meio ao aumento dos eventos climáticos extremos e à preocupação do setor com a possibilidade de um El Niño mais intenso nos próximos meses, o levantamento reforça a importância do seguro rural como ferramenta fundamental para proteger a renda do produtor e garantir a continuidade da produção agrícola.
Segundo Anna Cortellini, pesquisadora do Observatório do Crédito e Seguro Rural (OCSR) do FGV Agro e uma das autoras do estudo, o Brasil ocupa uma posição desfavorável em comparação aos demais países analisados.
“Entre os grandes países produtores, o Brasil está em uma posição de maior fragilidade em seguro rural. Aqui, os produtores rurais têm menor apoio e há menor cobertura de seguro”, afirma.
O levantamento mostra que apenas 3,3% da área plantada de grãos na safra 2024/25 contou com proteção securitária no país. Em contrapartida, mercados mais desenvolvidos apresentam índices muito superiores. Na Espanha, a cobertura varia entre 60% e 90%, enquanto nos Estados Unidos cerca de 90% das principais culturas possuem seguro.
Para a pesquisadora, embora cada país possua características próprias, alguns modelos podem servir de inspiração para o Brasil.
“Uma opção na qual o Brasil poderia se inspirar seria o modelo espanhol, que prevê um sistema de subvenção misto, com recursos públicos e privados”, observa.
A Índia também aparece como exemplo de sucesso. No país asiático, os agricultores pagam apenas uma pequena parcela do valor do seguro, enquanto o governo subsidia grande parte das apólices.
“No caso do Brasil, é difícil comparar com os Estados Unidos, que possuem o sistema de seguro mais robusto. Mas, na Ásia, a Índia tem um seguro rural que funciona, por exemplo”, destaca Cortellini.
Além da baixa cobertura, o estudo aponta a falta de previsibilidade nos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) como um dos principais obstáculos para a expansão do mercado.
“Produtores que não se preocupavam com seguro estão se preocupando. Existe uma preocupação tanto pela crise econômica quanto pelos fenômenos climáticos, porque ninguém sabe quanto o El Niño vai impactar este ano”, afirma a pesquisadora.
A preocupação também é compartilhada pelo mercado segurador. Segundo Daniel Nascimento, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), os cortes orçamentários têm comprometido a evolução do programa.
“O grande problema dos últimos anos é que, quando chega na execução do programa, o orçamento do PSR sofre cortes e o valor que o produtor teria de apoio acaba sendo cobrado pela seguradora”, explica.
Os números confirmam a redução dos recursos. Após atingir R$ 1,15 bilhão em 2021, o volume executado pelo PSR caiu para R$ 565,3 milhões em 2025, o menor patamar desde 2019.
Na tentativa de fortalecer o sistema, um projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados propõe mudanças no marco legal do seguro rural. Entre as medidas estão a proteção dos recursos destinados ao programa contra contingenciamentos e a criação de condições diferenciadas para produtores que contratam seguro.
“O PL vem para evitar que o orçamento do PSR sofra cortes e contingenciamentos. O mercado segurador está muito otimista com a aprovação”, afirma Nascimento.
Segundo ele, a medida pode aproximar o Brasil dos sistemas adotados em países com mercados mais desenvolvidos.
“Vai para um patamar mais próximo dos sistemas de países mais maduros”, avalia.
Mesmo com a expectativa de avanços, o setor reconhece que ainda há desafios importantes pela frente. Para ampliar significativamente a cobertura do seguro rural, especialistas estimam que seriam necessários cerca de R$ 3 bilhões anuais em recursos destinados à subvenção das apólices.
Enquanto isso, produtores e seguradoras seguem atentos aos riscos climáticos e às incertezas econômicas que continuam pressionando o agronegócio brasileiro.






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